O Destino
O destino pregou-me uma peça:
deu-me uma mãe e ma levou,
deu-me uma infância e cresci,
e, afinal, o que me sobrou?
Deu-me comida, já sem apetite,
mulheres, quando estava casado,
livros, quando só queria escrevê-los,
abundância, quando já estava enfadado.
Tirou-me Deus e deu-me Marx,
depois o trocou pela indiferença,
destruiu todos os meus ídolos,
e, sem eles, restou-me a descrença.
Tirou-me a magia do encontro,
a fantasia da elaboração,
o mágico da epifania,
a alegria da revelação.
Tirou-me o saco de ver amigos,
o gosto por um papo gostoso,
fez-me só e meus conflitos,
improdutivo, pouco proveitoso.
Mas o destino é sábio e de viés:
Quando fiquei mais intestino,
menos menino, mais ao revés,
deixei de crer-lhe ó Destino.
Ruy Penalva. Ssa. 14/03/2003.
quarta-feira, 30 de junho de 2010
Não Pedimos Nada Disso
Não pedimos nada disso
Não pedimos para nascer,
crescer, adolescer, adultificar.
Não pedimos para envelhecer,
adoecer, sofrer, desencarnar.
Onde está o livre arbítrio?
A quual Procon devemos queixar?
LF, 22/02/2003.
Ruy Penalva
Nossa Senhora
Nossa Senhora
Nossa Senhora Rosa Rainha,
protege-me das mocorongas,
ensina-me uma mezinha,
afasta-me dessas mondrongas,
receita-me uma panacéia,
livra-me duma mocréia.
Nossa Senhora dos Desvalidos,
blinda-me aos olhos maus,
aguça os meus sentidos,
faze-me mais animal.
Ó Nossa Senhora dos Remédios,
minimiza, Mãe, o meu tédio.
Nossa Senhora da Calipígia,
que governa todo traseiro,
por favor, não me aflija,
manda-me o mais altaneiro.
Nossa Senhora do Genuflexo,
quero Ser e ser sucesso.
Ruy Penalva Ssa. 31/03/2003.
Nossa Senhora Rosa Rainha,
protege-me das mocorongas,
ensina-me uma mezinha,
afasta-me dessas mondrongas,
receita-me uma panacéia,
livra-me duma mocréia.
Nossa Senhora dos Desvalidos,
blinda-me aos olhos maus,
aguça os meus sentidos,
faze-me mais animal.
Ó Nossa Senhora dos Remédios,
minimiza, Mãe, o meu tédio.
Nossa Senhora da Calipígia,
que governa todo traseiro,
por favor, não me aflija,
manda-me o mais altaneiro.
Nossa Senhora do Genuflexo,
quero Ser e ser sucesso.
Ruy Penalva Ssa. 31/03/2003.
Nada
Nada
Fragrante fragrância,
Ignominiosa ignorância.
Deturpada a mente.
Violada a mente.
Não queira saber como sofre o besouro
Quando encontra uma lâmpada incandescente.
Nem como fica o neurótico
Ordenhado sua dor seminalmente.
Ou o pobre mendigo
Cuja sarna locou seu corpo tão completamente.
Se eu me desfizesse,
Se eu desmilinguisse,
Se me subtraísse
Onde eu não somasse,
Eu chegaria ao ponto
Do não existisse
Nem o próprio ponto
Que eu procurasse.
Chegaria ao nada
Onde o nada existe,
Pois o nada existe
Onde existe o nada.
E de dentro-e-fora
Por onde circundasse
Não restasse o nada,
Nem a mim restasse.
Ruy Penalva, Ssa, 26/08/2005.
Fragrante fragrância,
Ignominiosa ignorância.
Deturpada a mente.
Violada a mente.
Não queira saber como sofre o besouro
Quando encontra uma lâmpada incandescente.
Nem como fica o neurótico
Ordenhado sua dor seminalmente.
Ou o pobre mendigo
Cuja sarna locou seu corpo tão completamente.
Se eu me desfizesse,
Se eu desmilinguisse,
Se me subtraísse
Onde eu não somasse,
Eu chegaria ao ponto
Do não existisse
Nem o próprio ponto
Que eu procurasse.
Chegaria ao nada
Onde o nada existe,
Pois o nada existe
Onde existe o nada.
E de dentro-e-fora
Por onde circundasse
Não restasse o nada,
Nem a mim restasse.
Ruy Penalva, Ssa, 26/08/2005.
segunda-feira, 28 de junho de 2010
O Céu É Feito De BálsAmo
Date: Jun 28, 2010
O Céu É Feito De BálsAmo
Category: Writing and Poetry
O Céu É Feito De BálsAmo
Acho, que no céu os anjos passam
bálsamo, mentol, eucaliptol e salicilato de metila
nas nossas costas, pernas e coxas
e nos cobrem com um edredom angelicalmente aquecido.
Tudo isso após um delicioso escalda-pé de bacia,
abafado com toalha bem felpuda e macia.
E ficamos aguardando o sono chegar,
enquanto vapores de vic vaporubs
nos adentram as narinas esperando uma nova inspiração.
E de murtas recendentes brotam pencas de laranjas Bahia,
doces como a ambrósia-doce que minha mãe fazia.
Doce como o êxtase que me extasia,
o bálsamo que me embalsama,
A minha alma ali na cama
Tudo que me acaricia.
O céu é feito de bálsAmo.
Ruy Penalva, 10 de março de 2005.
O Céu É Feito De BálsAmo
Category: Writing and Poetry
O Céu É Feito De BálsAmo
Acho, que no céu os anjos passam
bálsamo, mentol, eucaliptol e salicilato de metila
nas nossas costas, pernas e coxas
e nos cobrem com um edredom angelicalmente aquecido.
Tudo isso após um delicioso escalda-pé de bacia,
abafado com toalha bem felpuda e macia.
E ficamos aguardando o sono chegar,
enquanto vapores de vic vaporubs
nos adentram as narinas esperando uma nova inspiração.
E de murtas recendentes brotam pencas de laranjas Bahia,
doces como a ambrósia-doce que minha mãe fazia.
Doce como o êxtase que me extasia,
o bálsamo que me embalsama,
A minha alma ali na cama
Tudo que me acaricia.
O céu é feito de bálsAmo.
Ruy Penalva, 10 de março de 2005.
sábado, 26 de junho de 2010
Minha Amiga e a Minhoca
Uma grande amiga minha
colocou minhoca na cabeça,
apesar de lugar fértil,
não creio que ela cresça.
Essa mesma amiga minha
tinha um grilo na cachola,
quando a minhoca entrou nela
o grilo lhe foi embora.
Hoje com a minhoca na cabeça
e o grilo no coração
ela sente saudade do grilo
e alisa a minhoca com a mão.
Ruy Penalva. Ssa. 07/04/2003
Uma grande amiga minha
colocou minhoca na cabeça,
apesar de lugar fértil,
não creio que ela cresça.
Essa mesma amiga minha
tinha um grilo na cachola,
quando a minhoca entrou nela
o grilo lhe foi embora.
Hoje com a minhoca na cabeça
e o grilo no coração
ela sente saudade do grilo
e alisa a minhoca com a mão.
Ruy Penalva. Ssa. 07/04/2003
sexta-feira, 25 de junho de 2010
Eu Tenho Medo
Eu Tenho Medo
Category: Writing and Poetry
Eu Tenho Medo
Eu tenho medo é de estar só
Acompanhado da solidão,
De não ser um cara relativamente importante
E de ter corrido o risco de ser chamado de João.
Eu tenho medo é de ter coragem,
De ser aberto,
De ser Alberto,
De ter que ser avisado,
E de ter que andar avisando.
Disso tudo e de tudo visto.
Eu não gosto é de andar pendurado,
De andar perdoando,
De ser consumido,
De sonhar trabalhando em banco.
Eu odeio quando o É deixa de verbo Ser:
Como em Elogio,
Como em Egoísmo,
Assim como em incErteza.
Eu não gosto de pensar que não posso,
Se não devo pensar que não posso,
Se penso que não devo pensar.
É como se algo contra mim viesse
E se tornasse o meu melhor inimigo.
É como se algo contra mim voltasse
E se tornasse o meu pior amigo.
Salvador, 1972.
Ruy Penalva
Category: Writing and Poetry
Eu Tenho Medo
Eu tenho medo é de estar só
Acompanhado da solidão,
De não ser um cara relativamente importante
E de ter corrido o risco de ser chamado de João.
Eu tenho medo é de ter coragem,
De ser aberto,
De ser Alberto,
De ter que ser avisado,
E de ter que andar avisando.
Disso tudo e de tudo visto.
Eu não gosto é de andar pendurado,
De andar perdoando,
De ser consumido,
De sonhar trabalhando em banco.
Eu odeio quando o É deixa de verbo Ser:
Como em Elogio,
Como em Egoísmo,
Assim como em incErteza.
Eu não gosto de pensar que não posso,
Se não devo pensar que não posso,
Se penso que não devo pensar.
É como se algo contra mim viesse
E se tornasse o meu melhor inimigo.
É como se algo contra mim voltasse
E se tornasse o meu pior amigo.
Salvador, 1972.
Ruy Penalva
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